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wFalta Coisa |
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Reflexões sobre dias cinzentos
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wSexta-feira, Julho 29, 2005 |
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A garota assumiu. Estava completamente apaixonada e achou que o mundo deveria compartilhar tamanha felicidade. Exaltava seu querido com tanto fervor, que chegava a dar inveja. Inventava mundos fantásticos, que se tornavam também possíveis diante de inigualável ternura. O espaço ao seu redor parecia pequeno demais, faltava lugar para que o sentimento pudesse florescer ainda mais, alcançar patamares que nunca seriam vistos, apenas imaginados.
Nunca ousaria dizer que acabaria, não acreditava que poderia dormir satisfeita de tal maneira e acordar sem esperança. Mas buscou inspiração no violão chorado, acobertado pelo som dos violinos nos refrões. O som estava ligado e, sem muita convicção, ela pensava no tempo perdido. Já fizera isto antes, era só esperar o momento certo e aquele parecia ser o ideal. Caneta, papel, para deixar claro o esquecimento. Nunca se arrependeria do que viria a escrever como despedida.
...,
Assim como você disse que seria, uma curta história, sem amor, sem glória, sem heróis. Seriam inúteis agora. Esquecemos-nos do cheiro, do toque. Viro-me, sem olhar para trás, vou embora sem pesar. Cabe aos fracos desistir. Entenda, portanto, que é o fim. Quando acordar, estará ao seu lado somente a lembrança. O resto, levo comigo. Viva, seja feliz. Delicadamente, caso seja possível, preciso dizer que descobri, você não era o que eu queria. Então me despeço. Engula suas lágrimas, penitencie-se pelo sofrimento que poderia me causar. Nunca mais.
Atenciosamente,
..................
Quando o garoto acordou, realmente nada pôde fazer. O bilhete estava cuidadosamente disposto sob o travesseiro. A cama desarrumada e o cheiro marcante, apaixonante. Permaneceu estático, os olhos vidrados no teto, procurando uma explicação. A resposta, conscientizou-se, estava na falta de amor. Estava configurada uma situação que dificilmente seria então modificada. Portanto, só lhe restava recolher as próprias coisas, colocá-las na mochila e ir embora.
Dias antes havia chorado, pela mesma mulher. Imaginar que poderia perdê-la fez com que algo dentro do peito se deslocasse. Mas agora, diante da real situação, parecia conformado. Também nunca esperou algo diferente. Caso escrevesse um livro sobre o romance, o final certamente seria aquele. Vestiu-se, tomou o cuidado de lavar o corpo para que todo vestígio do dia maravilhoso deixasse de existir. Uma olhada demorada no quarto foi o último resgate do tempo apagado da memó
Pensou que seria maravilhoso abrir e porta e ver que tudo não passava de uma encenação. Ali estaria seu amor esperando, de braços abertos, pedindo para voltar porque viver sem aquele abraço não era possível. Sorriu ao imaginar tal situação, justamente pelo fato de ter certeza que nunca ocorreria. Conhecia-a o suficiente para saber que tal tipo de fraqueza, de doação, não fazia parte de sua personalidade forte, ansiosa por uma vida menos comprometida com o outro.
Trancou o quarto, recolheu as chaves e observou também a paisagem. Suspirou, os olhos vendados para sentir o vento bater em seu rosto. Arrependeu-se naqueles segundos do que fizera erroneamente, mas sabia que mesmo o certo seria ineficaz. O título fica então justificado. Faltava coisa. A música que ele escutava agora era muito mais animada. Dançou sozinho e prestou muita atenção no caminho de volta, para que pudesse esquecer definitivamente o de ida.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 1:50 PM
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wTerça-feira, Julho 26, 2005 |
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O circo chegou à cidade, com sua intensa luminosidade. A lona foi estendida no centro do terreno e, ao redor, foram dispostas as barracas que ofereciam jogos conhecidos da comunidade. Aquela movimentação era encantadora, em especial por se tratar de algo poucas vezes observado. Tamanha agitação, somente quando um helicóptero desceu no lugar para que um milionário de uma região distante pudesse observar uma oportunidade de negócio. Naquele dia as crianças corriam como se, com as pequenas mãos, fossem capazes de segurá-lo, como lembrança que perduraria por toda a eternidade. Dificilmente a cena se repetiria no local.
Mas o circo parecia maior, era mais próximo. O chão batido, de terra, era vencido pelos pés pequenos de pessoas menores ainda, que se encantavam com cada novo barulho. Alguns se prendiam nos jogos de dardos. Os casais lançavam anéis ao redor das garrafas dispostas em pé, na expectativa de presentearem com um daqueles ursos de pelúcia os seus parceiros. Atirar com balas de chumbinho nos patos de borracha que passavam enfileirados, era uma das tarefas prediletas. Não que fosse o mais espetacular de todos os circos, mas proporcionava diversão a todo o povo pouco provido de recursos, carente de motivações não reais.
Evidentemente, a ocasião era também propícia para a venda de muitas guloseimas. Os próprios moradores do lugarejo se organizaram para arrecadar dinheiro com a oferta de delícias locais. Porém, o maior sucesso eram as tortas feitas pela filha de um dos domadores de leão do próprio circo. Mesmo que alguém argumentasse contrariamente ao sabor de tais quitutes, era incontestável o prazer que os mesmos proporcionavam aos olhos. Eram vistosas e mesmo os que não costumavam se impressionar, não conseguiam desviar a atenção da barraca. O cheiro também atraía. Os artifícios garantiram o sucesso do empreendimento.
Um jovem de uma cidadela vizinha resolveu ver de perto aquele espetáculo do qual tanto falavam. Era o último dia. Gastou o suado dinheiro para chegar ao local e não se decepcionou. Vasculhou cada canto do terreno e, após longo tempo, cansado, observou que já não havia quase ninguém ao redor. Só então percebeu que sentia fome também e se lembrou imediatamente da barraca das tortas. Dirigiu-se para lá esperando que ainda estivesse aberta e mais uma vez teve sorte. A filha do domador de leão recolhia os últimos pratos. O garoto, sem graça, perguntou se ainda era possível provar um daqueles quitutes e obteve um sim como resposta.
Eram somente dois pratos em cima do balcão, uma torta de maça e outra de amora. O jovem gostava das duas. Mas antes que escolhesse, a dona da barraca disse que ambas representavam diferentes prêmios, já que eram as últimas. Decidir assumiu então um tom diferente, tornou-se extremamente complicado. O garoto concluiu que optar por uma torta significava ganhar algo, mas também perder outro prêmio. Sabia que não poderia ter tudo e a dúvida o consumiu durante minutos. Tentou imaginar para qual lado apontar e, no final das contas, indicou a de maça, que o fazia lembrar de bons momentos de sua infância.
O prêmio veio em seguida, acompanhado de um sorriso amigável. O garoto olhou, agradeceu com um leve gesto e começou a andar, de costas, fitando a torta que sobrara. Não tinha certeza se fez a escolha certa, nunca saberia. Virou-se e sem explicações chorou, quieto, sem alardes. Anos depois, ainda se lembra daquele dia. Não houve arrependimento, mas um frio estranho consome seu corpo toda vez que precisa optar seriamente por algo fora de seu controle. Pensou que havia se amparado na razão e, assim, pode ter deixado escapar uma vida inteira. Derramou a última lágrima e fechou os olhos, suspirando demoradamente, disposto a esquecer e ao mesmo tempo desejando nunca mais acordar. Tudo em função de uma simples torta de maça.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 5:10 PM
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wSegunda-feira, Julho 18, 2005 |
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Quando ouviu seu nome pronunciado, Tim se levantou calmamente, embora as pernas tremessem e estivesse tomado por um sentimento estranho. Sabia que poderia responder com naturalidade a qualquer questionário, mas fazê-lo na frente dos demais colegas não era confortável. Ainda não o conheciam o suficiente, de modo que não gostaria de deixar uma impressão ruim. Em especial porque era um rapaz inteligente. Lerdo em excesso em alguns casos, mas extremamente dedicado aos estudos e grande apreciador do conhecimento. Qualquer nova intriga era suficiente para dar início a estudos prolongados sobre o tal assunto.
Como praticara a disciplina no dia anterior, postou-se na frente da sala e objetivou responder à todas as perguntas com naturalidade. Não foi exatamente possível, até mesmo em função da pouca familiaridade com aquele tipo de cobrança. Mas se saiu bem, foi breve, com poucos minutos foi liberado para que outro pudesse ser chamado a ocupar o seu lugar e passar pelo mesmo suplício. Saiu em direção aos que antes foram sabatinados, para que pudessem comentar suas atuações. Sentiu-se aliviado, um peso parecia ter sido tirado de suas costas. Mal sabia, porém, que ficaria aquele dia marcado na memória por motivações pequenas.
Olhou para trás e, pela primeira vez em alguns meses, notou Sarah. Andava em sua direção, confiante, exibia um sorriso banal e um olhar despreocupado que tocou Tim profundamente. Embora a visse diariamente e a achasse muito bonita, nada conversavam e aquela parecia ser a primeira oportunidade. Isto porque ela, despretensiosamente, dirigiu-lhe a palavra, de maneira formidavelmente amiga:
- Você foi muito bem!
- Como você sabe?, retrucou Tim. Ele disse algo?
- Não, não disse, mas você foi bem.
- Não sei. E você, como foi?
- Também não sei.
Foram as últimas palavras antes que ela envolvesse as demais pessoas presentes na conversa. O assunto pareceu encerrado. Tim quis evitar que isto ocorresse e tentou mais um contato. Mas não foi bem sucedido como esperava. Sarah, centro das atenções, respondia a todos, com um sorriso inquietante, provocativo. Era evidente que gostava da posição que ocupava naquele momento, como se todos estivessem interessados no que tinha em mente. Seu ar de superioridade era ao mesmo tempo instigante, mas principalmente detestável. Deixava transparecer grande desdém e apatia, questionava a razão de tudo o que ocorrera naquele dia. E, mesmo sem demonstrar, esperava opiniões semelhantes.
Após alguns minutos, Sarah disse que precisava ir embora. Tim aproveitou a chance para acompanhá-la até a saída. Despediu-se também de todos, sugerindo uma grande coincidência de horários. Ele quis saber como a mesma se divertia, do que gostava. De maneira estranhamente interessante, percebeu em seus gestos e poucas palavras, traços de uma personalidade forte, decidida. Não era aquela menina séria e compenetrada percebida no mesmo ambiente que ocupavam. Pelo contrário, possuía um certo ar juvenil, nada perceptível fisicamente.
Como o tempo era curto, ambos sugeriram uma conversa em outro momento. Dificilmente ocorreria, o que realmente conduziu o primeiro contato foi a vontade de se conhecerem. E já estava feito. Não surgira ali algum interesse mais profundo, naquela breve troca ficou evidente que eram diferentes. Não seriam sequer amigos, eram mais duas pessoas integrando uma comunidade maior, que pouco bem proporcionava aos que se dispersavam. Sarah não olhou para trás e Tim, ao virar as costas, já se preocupava com diversos problemas dos últimos dias.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 5:42 PM
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wQuarta-feira, Julho 06, 2005 |
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Não saberia dizer o que há de verdadeiro no que as pessoas costumam chamar de coincidências. Mas é impressionante como somos levados a viver determinadas situações em momentos críticos. Em dias tristes, por exemplo, parece que tudo o que encontramos pela frente conspira para que não consigamos esquecer o motivo do desespero emocional. Grandes bobeiras nos fazem lembrar de pessoas que precisam ser esquecidas, assim como instantes assumem uma caracterização descompassada, o suficiente para que sejam cortadas da lista de execução mental.
Em tais momentos, inclusive, fica a sensação de intensa confusão. A realidade confunde-se com a ficção e os relatos pouco verdadeiros de outras pessoas, distantes de nossas vidas. Nos perguntamos sobre a existência de histórias tão bonitas, pessoas tão perfeitas. É simplesmente uma tentativa absurda de encontrar o caminho ideal para a construção dos relacionamentos de carne e osso, palpáveis, cheios de incertezas, dependentes de tamanhas preocupações e medos. Não depende apenas de sermos mais fáceis, o substancial é o fato de sermos humanos.
É impossível não pensar em dizer as palavras certas nos momentos que as pedem. Seria evidentemente primoroso se pudéssemos substituir o toque pela presença, de modo a preencher o vazio com a simples existência. Tenho a impressão, porém, que tal atitude é mais facilmente praticável exatamente quando não corresponde às nossas possibilidades. Discussões teoricamente complexas assumem um tom simplório e as dificuldades passam por nossos olhos como se todos os problemas fossem realmente solucionáveis, com um toque de saudade para torná-los mais mundanos.
Mas quando estão em nossas mãos, ocorre algo distinto. Porque as distâncias não são assim tão suportáveis. E se a correspondência for com alguém que definitivamente descobrimos não valer a pena, torna-se também preocupante, mistura-se com uma ansiedade absurda. Melhor então esquecer, dormir tranqüilamente sem a inquietação, por não sabermos exatamente como os outros reagem em situações críticas. A definição para o caso é perfeita, disseram outro dia que realmente existem pessoas que transformam amor em gráficos, meticulosamente desenhados.
A história que me foi passada tinha algo ainda sem explicação. A bola de sujeira, que parecia ser de outro planeta, saiu de casa sozinha, escondida, deixou dormindo a sua plataforma de embarque para a vida real. Entregou-se e riu com suas combinações cheias de impurezas e se deu apenas uma opção. Não resistir, porque sempre se achou o máximo, passara por tudo com impunidade. Não seria castigada pela consciência, eram muitas provas a respeito da inexistência da mesma. A resposta veio com a vida, que não dava tréguas a pessoas sem caráter, arrogantes. O nojo.
Ainda não sei o final. Torço, neste caso, para a queda violenta. Nos momentos mais difíceis não pode haver fuga, como as que ocorrem agora. Será favorável somente para que um novo direcionamento possa ser dado. Tomar um banho não ajuda a levar pelo ralo a culpa. Telefonemas em momentos estratégicos de solidão não explicam as ações. De uma forma misteriosa, pouco elucidativa, consta a resposta solicitada para a patologia. Não desista nunca. Simplesmente porque não podemos, aos homens não foi concedido o privilégio da ataraxia.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 3:11 PM
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