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wFalta Coisa |
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Reflexões sobre dias cinzentos
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wTerça-feira, Setembro 05, 2006 |
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Naquele único dia, e por instantes,
A chuva exalava sabor, especial.
Talvez não fosse capaz de embeber,
Mas transpassava o corpo sedento,
Admirado, encharcado pela beleza exposta.
O coração, sempre egoísta, precisou reconhecer.
Os olhos se excediam, ocupavam espaço,
Ambos na mesma direção, interessados.
De tal modo que deixou a impressão...
A melhor de todas as primeiras.
O medo presenciou, carregado pelo tempo.
Mas ora! O tempo urge!
Cada hora passada, também contada,
Cuidadosa ao permitir que cada sorriso se aloje.
Na incerteza da mente, da saudade. Ou será no amor?
Pouco silencioso, despejo palavras,
No mesmíssimo instante em que as engulo.
Nada errado, nada demais, a não ser o desejo,
Suplica incansável por beijos certamente marcantes,
Como a própria luta pelo sonho mostra ser, inesquecível.
Selado o dia, com a estampa do toque,
Aproxima-se a certeza da felicidade.
Sem o cheiro impregnado, sem o forte abraço.
Apenas a memória,
A guardar em seus baús a promessa do novo hoje ... amanha.
PS: um pouco de poesia no quadro azul, preenchido com a cor laranja do sol...
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 3:05 PM
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wSexta-feira, Outubro 28, 2005 |
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Mais de um mês. Esquecimento bobo, na verdade involuntário. Pretendo retomar com fervor a escrita. Agora, porém, com um diferente sentimento a me impulsionar. O engraçado é que a segunda parte do texto se encaixa perfeitamente no momento. Lembro-me do discurso de uma companheira, sugerindo com delicadeza a valorização das pessoas que estão sempre ao seu lado, que nunca abandonam o amor. São capazes de sonhar, sentir a mesma emoção que o autor, mesmo não interagindo objetivamente na construção da obra.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém/ e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos,/ que faço falta quando não estou por perto/ Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras/ alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho./ Que me veja como um ser humano completo,/ que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona,/ que dê valor ao que realmente importa,/ que é meu sentimento/ E não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude,/ para que eu nunca cresça,/ para que eu seja sempre eu mesmo.
Explico, também tenho uma sugestão. É exatamente o conselho dado por todos. Antes de se apaixonar perdidamente por alguém, que certamente não faz parte do seu mundo, procure em seu próprio espaço aquele que realmente sente sua falta. Não siga o caminho da revolução sentimental, acreditando que pode ser ainda mais amado. Quando há o rompimento, evidencia-se o verdadeiro caráter. É possível separar então os que nunca desistem, porque não conseguem ser felizes na ausência, daqueles que aproveitam a ocasião para propor descobertas em outros braços.
Sobre a raiva, neste sentido, também tenho algo a declarar. Todos nós já nos pronunciamos de maneira inadequada em algum momento, tomados pelo ódio arrebatador que nos transforma em monstros. Entretanto, também assim é necessária uma diferenciação. Há aquele que se arrepende e liga pedindo perdão, não esperando aceitação. Do outro lado, posta-se o que acredita tanto em sua beleza e na possibilidade de substituir o tempo vivido com novas experiências, que esquece da existência de outros sentimentos, além do sofrimento que parece ser único.
Hoje não é um dia de festa. Para alguns, é claro. Outros estão se divertindo, porque a tristeza de ontem é realmente a felicidade de hoje. Nunca mudam. Exatamente por isso decidi tocar o barco, abandonar a canoa furada. Em breve as cores deste blog mudarão, serão mais felizes. É porque nos últimos dias pensei em coisas que poderiam ser ditas neste local, para pessoas diferentes que nele vivem. Mas essa é uma longa história e ainda falta uma parte do texto.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 1:33 AM
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wSegunda-feira, Setembro 19, 2005 |
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É verdade sim. Às vezes formulamos pensamentos a respeito de algumas pessoas que não correspondem à realidade. Quando sugeri a dificuldade de sermos surpreendidos, recebi uma resposta inesperada. Foi o início de uma exaustiva, mas prazerosa discussão a respeito da crença em histórias de amor com um final feliz. Dois dias de debates, intensificados pelas experiências, bem tratadas ou sufocantes. Certo é que mudei mais uma vez minha opinião a respeito do assunto.
Pouco tempo antes, li uma série de frases que seriam utilizadas. Mas acabamos nos prendendo na discussão a uma em especial. Se você não sabe amar, não faça sofrer quem tanto te ama. Perfeito, nada poderia ser mais próximo. Fez-me acreditar, insistia em dizer, que não procurou se apaixonar, deixou acontecer e hoje guarda no peito o maior sentimento do mundo. Achei bonito. Uma ponta de inveja, talvez. Muitas lágrimas, lamentando o fato de não poder corresponder.
Lembrei-me de um poema que procurei em um dia especial, naquela livraria longe de casa. Não encontrei exatamente o que queria, representação ideal. Mas vasculhei o pensamento para utilizar a arte como argumento na discussão. Decidi reproduzi-lo aqui em partes. Espero que seja o suficiente para me fazer entender e que eu tenha sido capaz de convencer. Seria muito importante se entrássemos em um acordo, de imediato, para que as ações subseqüentes sejam facilitadas.
Não quero que alguém morra de amor por mim/Só preciso que alguém viva por mim/Que queira estar junto de mim, me abraçando./Não exijo que esse alguém me ame como eu amo,/quero apenas que me ame,/não se importando com que intensidade./Não tenho a pretensão de que todas/as pessoas que gosto, gostem de mim.../Nem que eu faça a falta que elas me fazem./O importante pra mim é saber que eu,/em algum momento, fui insubstituível.../E que esse momento será inesquecível.../Só quero que meu sentimento seja valorizado./Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto,/mesmo quando a situação não for muito alegre.../E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Ótimo então. Termino depois, agora vou me deitar para dormir, esperando mais um daqueles telefonemas, de madrugada, cheios de carinho. Como também sei que nunca ocorrerá, estou preparado para continuar a sonhar, um sonho por dia. E a me reerguer cada vez que me sentir por baixo. Afinal de contas, achei também muito interessante quando me foi dito que não precisamos morrer para aprendermos a viver. Obrigado. Por fazer com que eu me sentisse especial e, principalmente, por me ensinar que toda história pode ter um final feliz.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 12:49 AM
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wQuinta-feira, Setembro 15, 2005 |
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Como dito no último post, há mais de um mês, as coisas realmente mudaram. Não saberia dizer exatamente em que momento me conscientizei da necessidade de trocar algumas peças na engrenagem da vida. Foi como aquela luz que surge próxima à cabeça de personagens de histórias em quadrinhos, que repentinamente entendem o significado de preciosas barreiras impostas pelo tempo. O medo foi deixado para trás, a comodidade suplantada por um desejo racional muito maior.
Sei que um fato, em especial, foi importantíssimo para a troca efetuada pelo pensamento. A cumplicidade. Uma amizade que atinge níveis extremados de respeito e consideração. Um sentimento que não permite a mínima agressão, sem ameaças, mesmo em momentos de raiva extremada, quando geralmente deixamos o bom senso de lado para nos atacarmos, em busca de uma superioridade forjada. Existem pessoas que agem de tal maneira. Na verdade, a maioria de nós.
Fui claro. A maioria, não todos. Pertence a Mário Quintana a reprodução do momento, a carta recebida de uma maneira inesperada, surpreendente. Algumas pessoas nunca serão capazes de pedir distância ao grande amor. Aprenderão que o orgulho pode ser superado e o sofrimento vale a pena para que os objetivos sejam alcançados. Humildemente, descobrirão que não é necessário termos mais de uma opção, mas desejar com fervor uma única pessoa, por toda a vida.
Existe somente uma idade para a gente ser feliz. Somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos. E ter energia bastante para realizá-los, a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente. E desfrutar tudo com toda intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida, a nossa própria imagem e semelhança. E vestir-se com todas as cores, e experimentar todos os sabores, e entregar-se a todos os amores, sem preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem, em que todo desafio é mais um convite à luta, que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo novo, de novo e de novo E quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se presente. E tem a duração do instante que passa.
Engraçado. Ainda restam algumas marcas na parede. Achei que todas tivessem sido apagadas. Não sei se as deixarei lá por mais algum tempo ou providenciarei, rapidamente, que sejam jogadas fora. Assim como finalmente pude fazer com as fotos e a velha carteira de motorista. Como nunca fui surpreendido, decidi não esperar por novidades agora também. Pela primeira vez. Aguardo, sim, um final de semana especial. Dias cada vez mais especiais. Para que não falte mais nada.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 11:37 PM
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wTerça-feira, Agosto 02, 2005 |
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Quando Tim terminou o relacionamento, sofreu em demasia. Passou noites em claro, à espera de um conforto que não chegava. Escrevia cartas de amor que nunca foram entregues, balbuciava o nome de Sarah em momentos de tristeza, que se tornaram constantes. Enxergava o rosto de sua amada em todas as outras pessoas, cansou de olhar as placas dos automóveis para ver se a encontrava solta pela rua. Pendurou sua foto no retrovisor do carro, tudo para impedir que o tempo levasse embora a lembrança. Mesmo ciente que ela nunca voltaria, mantinha-se feliz com a possibilidade de não esquecer os melhores dias de sua vida.
Nos primeiros momentos esperou que ela fosse ligar. Desesperadamente, agarrava-se ao telefone e dizia para si mesmo que tudo mudaria caso Sarah realmente o procurasse. Mas ela não o fez e Tim finalmente pensou em desistir. Decidiu que o sentimento permaneceria inalterado, mas não agüentava mais o sofrimento. Procurou então a redenção nos braços de outras mulheres. Sentia-se feliz com o interesse, mas ao deitar para dormir, no final da noite, admitia que estava se enganando. Nenhuma pessoa seria capaz de substituir o amor de sua vida em seu coração. Por isso, depois de tanto bater a cabeça contra a parede, mudou os gestos.
Marcou um dia, que seria o prazo final. Após aquele instante, nunca mais se deixaria levar pela emoção. Caso Sarah não o procurasse até o momento determinado, tudo estaria acabado, definitivamente. Provavelmente uma força superior conspirava para que aquele fosse o fim. Porém, justamente na data definida, ela apareceu e a vida de Tim simplesmente recomeçou. O rapaz conseguia respirar mais facilmente e os frios que tomavam seu corpo a cada boa ou má lembrança deixaram de existir. Sabia que felicidade era tê-la, mesmo aos poucos, mesmo envenenado pela dor da traição que marcara o término do relacionamento anterior.
Novamente, eventualidades interferiram e os dois não conseguiram se manter unidos. E Tim voltou a sofrer, desta vez de uma maneira quase descontrolada. Seu coração estava partido, vivia escondido pelos cantos a lamentar a ausência de sua metade, que lhe acrescentava sabor à vida. Chorava sozinho e concedeu à existência um novo significado. Ninguém poderia ajudá-lo. A diferença é que agora o garoto queria realmente deixar de amar Sarah. Ela virou as costas e disse que ia embora procurar alguém que a fizesse feliz. Tamanha dor ele não conseguiu absorver e passou a buscar também outras motivações.
Antes que pudesse imaginar, encontrou-as. Uma pessoa muito especial, conhecida com profundidade dias depois, disse-lhe para que não sofresse. Foi quase um pedido. Ele entendeu e marcou novamente uma data em sua vida. Fez chegar até mim que no final de semana tomará uma decisão importante. O sentimento por Sarah deixará de fazer sentido após esta data. Isto porque o passado será rasgado e existirá somente como passado. Não que queira viver sem ela, muito pelo contrário. A verdade é que inesperadamente conseguiu aprender, em pouco tempo de convivência. Nos últimos dias entendeu que, apesar de, deve amar novamente. Até lá, recesso neste blog. Muita coisa mudou e muitas ainda mudarão.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 8:31 PM
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wSegunda-feira, Agosto 01, 2005 |
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Dias depois, a garota admitiu que havia tomado a decisão errada. Realmente chegou a pensar que ainda não encontrara o grande amor de sua vida. Mas bastaram algumas horas de ausência para descobrir que tudo não passou de um momento de desespero, mal calculado. Queria voltar atrás, só que agora não sabia mais se era possível. Tinha certeza que o sentimento estava intacto, mas a consideração provavelmente teria sido deixada de lado, após mais uma decepção.
Da mesma forma que fizera anteriormente, resolveu escrever, agora para pedir desculpas. Seria a melhor atitude. Pensou que um email pudesse acertar a situação. Porém, não obteve resposta. A garota não sabia, mas ele nunca chegou a ler o que estava contido naquela mensagem. Ficou com medo de ser algo que dificultasse o esquecimento ou trouxesse consigo dores insuperáveis, justamente no momento que necessariamente exige superação. Apagou com tristeza.
Ela então mudou a tática. Comprou um belo arranjo de flores, escreveu um lindo bilhete de reconciliação e estacionou seu carro na casa do amado. Desceu, ainda tremendo, sem saber qual resposta obteria. Mesmo assim decidiu que faria valer a pena, nenhum sofrimento era superior à dor da distância. Tocou a campainha e esperou por segundos, que se transformaram em horas de aflição. E ver sua metade sair pela porta foi o suficiente para que a primeira lágrima caísse.
Olharam-se com ternura. Em silêncio, a garota estendeu as mãos e entregou as flores. Ele sorriu e a abraçou. Sentir seu cheiro novamente era mais do que havia pedido. Não conseguiu conter o choro também. Quando finalmente se soltaram, ele pegou o cartão, disposto junto ao perfumado presente. Estava feliz, embora ainda não soubesse exatamente o que aquele momento representava. Hesitou, olhou profundamente nos olhos da mulher de sua vida e começou a ler o que recebera.
Quando disse que a história seria curta, sem amor, estava enganada. Quero você por toda a eternidade. Quando disse que seria possível esquecer o cheiro ou o toque, menti. Durmo pensando em você e acordo triste por não tê-lo. Quando você pediu, fui incapaz de dizer que te amava. Mas chega. Os erros não serão repetidos. Somente quando virei as costas percebi porque você nunca me deixou. Então não é o fim e eu nunca o aceitarei, a lembrança não é suficiente.
Ele releu o bilhete. Por dois bons motivos. Queria acreditar que era verdade e também tomar uma decisão. Estava satisfeito com a procura e mais ainda com a possibilidade de ter a garota de volta. Era muita intensidade e aquele gesto estava além de tudo o que esperava. Então levantou a cabeça e o beijo foi o mais bonito que o mundo já viu. Nenhum filme conseguiria reproduzir tamanha emoção, nenhum casal poderia ser tão feliz. Era evidente que nenhum amor era como o daqueles dois.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 12:10 PM
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wSexta-feira, Julho 29, 2005 |
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A garota assumiu. Estava completamente apaixonada e achou que o mundo deveria compartilhar tamanha felicidade. Exaltava seu querido com tanto fervor, que chegava a dar inveja. Inventava mundos fantásticos, que se tornavam também possíveis diante de inigualável ternura. O espaço ao seu redor parecia pequeno demais, faltava lugar para que o sentimento pudesse florescer ainda mais, alcançar patamares que nunca seriam vistos, apenas imaginados.
Nunca ousaria dizer que acabaria, não acreditava que poderia dormir satisfeita de tal maneira e acordar sem esperança. Mas buscou inspiração no violão chorado, acobertado pelo som dos violinos nos refrões. O som estava ligado e, sem muita convicção, ela pensava no tempo perdido. Já fizera isto antes, era só esperar o momento certo e aquele parecia ser o ideal. Caneta, papel, para deixar claro o esquecimento. Nunca se arrependeria do que viria a escrever como despedida.
Assim como você disse que seria, uma curta história, sem amor, sem glória, sem heróis. Seriam inúteis agora. Esquecemos-nos do cheiro, do toque. Viro-me, sem olhar para trás, vou embora sem pesar. Cabe aos fracos desistir. Entenda, portanto, que é o fim. Quando acordar, estará ao seu lado somente a lembrança. O resto, levo comigo. Viva, seja feliz. Delicadamente, caso seja possível, preciso dizer que descobri, você não era o que eu queria. Então me despeço. Engula suas lágrimas, penitencie-se pelo sofrimento que poderia me causar. Nunca mais.
Quando o garoto acordou, realmente nada pôde fazer. O bilhete estava cuidadosamente disposto sob o travesseiro. A cama desarrumada e o cheiro marcante, apaixonante. Permaneceu estático, os olhos vidrados no teto, procurando uma explicação. A resposta, conscientizou-se, estava na falta de amor. Estava configurada uma situação que dificilmente seria então modificada. Portanto, só lhe restava recolher as próprias coisas, colocá-las na mochila e ir embora.
Dias antes havia chorado, pela mesma mulher. Imaginar que poderia perdê-la fez com que algo dentro do peito se deslocasse. Mas agora, diante da real situação, parecia conformado. Também nunca esperou algo diferente. Caso escrevesse um livro sobre o romance, o final certamente seria aquele. Vestiu-se, tomou o cuidado de lavar o corpo para que todo vestígio do dia maravilhoso deixasse de existir. Uma olhada demorada no quarto foi o último resgate do tempo apagado da memória.
Pensou que seria maravilhoso abrir e porta e ver que tudo não passava de uma encenação. Ali estaria seu amor esperando, de braços abertos, pedindo para voltar porque viver sem aquele abraço não era possível. Sorriu ao imaginar tal situação, justamente pelo fato de ter certeza que nunca ocorreria. Conhecia-a o suficiente para saber que tal tipo de fraqueza, de doação, não fazia parte de sua personalidade forte, ansiosa por uma vida menos comprometida com o outro.
Trancou o quarto, recolheu as chaves e observou também a paisagem. Suspirou, os olhos vendados para sentir o vento bater em seu rosto. Arrependeu-se naqueles segundos do que fizera erroneamente, mas sabia que mesmo o certo seria ineficaz. O título fica então justificado. Faltava coisa. A música que ele escutava agora era muito mais animada. Dançou sozinho e prestou muita atenção no caminho de volta, para que pudesse esquecer definitivamente o de ida.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 1:50 PM
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wTerça-feira, Julho 26, 2005 |
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O circo chegou à cidade, com sua intensa luminosidade. A lona foi estendida no centro do terreno e, ao redor, foram dispostas as barracas que ofereciam jogos conhecidos da comunidade. Aquela movimentação era encantadora, em especial por se tratar de algo poucas vezes observado. Tamanha agitação, somente quando um helicóptero desceu no lugar para que um milionário de uma região distante pudesse observar uma oportunidade de negócio. Naquele dia as crianças corriam como se, com as pequenas mãos, fossem capazes de segurá-lo, como lembrança que perduraria por toda a eternidade. Dificilmente a cena se repetiria no local.
Mas o circo parecia maior, era mais próximo. O chão batido, de terra, era vencido pelos pés pequenos de pessoas menores ainda, que se encantavam com cada novo barulho. Alguns se prendiam nos jogos de dardos. Os casais lançavam anéis ao redor das garrafas dispostas em pé, na expectativa de presentearem com um daqueles ursos de pelúcia os seus parceiros. Atirar com balas de chumbinho nos patos de borracha que passavam enfileirados, era uma das tarefas prediletas. Não que fosse o mais espetacular de todos os circos, mas proporcionava diversão a todo o povo pouco provido de recursos, carente de motivações não reais.
Evidentemente, a ocasião era também propícia para a venda de muitas guloseimas. Os próprios moradores do lugarejo se organizaram para arrecadar dinheiro com a oferta de delícias locais. Porém, o maior sucesso eram as tortas feitas pela filha de um dos domadores de leão do próprio circo. Mesmo que alguém argumentasse contrariamente ao sabor de tais quitutes, era incontestável o prazer que os mesmos proporcionavam aos olhos. Eram vistosas e mesmo os que não costumavam se impressionar, não conseguiam desviar a atenção da barraca. O cheiro também atraía. Os artifícios garantiram o sucesso do empreendimento.
Um jovem de uma cidadela vizinha resolveu ver de perto aquele espetáculo do qual tanto falavam. Era o último dia. Gastou o suado dinheiro para chegar ao local e não se decepcionou. Vasculhou cada canto do terreno e, após longo tempo, cansado, observou que já não havia quase ninguém ao redor. Só então percebeu que sentia fome também e se lembrou imediatamente da barraca das tortas. Dirigiu-se para lá esperando que ainda estivesse aberta e mais uma vez teve sorte. A filha do domador de leão recolhia os últimos pratos. O garoto, sem graça, perguntou se ainda era possível provar um daqueles quitutes e obteve um sim como resposta.
Eram somente dois pratos em cima do balcão, uma torta de maça e outra de amora. O jovem gostava das duas. Mas antes que escolhesse, a dona da barraca disse que ambas representavam diferentes prêmios, já que eram as últimas. Decidir assumiu então um tom diferente, tornou-se extremamente complicado. O garoto concluiu que optar por uma torta significava ganhar algo, mas também perder outro prêmio. Sabia que não poderia ter tudo e a dúvida o consumiu durante minutos. Tentou imaginar para qual lado apontar e, no final das contas, indicou a de maça, que o fazia lembrar de bons momentos de sua infância.
O prêmio veio em seguida, acompanhado de um sorriso amigável. O garoto olhou, agradeceu com um leve gesto e começou a andar, de costas, fitando a torta que sobrara. Não tinha certeza se fez a escolha certa, nunca saberia. Virou-se e sem explicações chorou, quieto, sem alardes. Anos depois, ainda se lembra daquele dia. Não houve arrependimento, mas um frio estranho consome seu corpo toda vez que precisa optar seriamente por algo fora de seu controle. Pensou que havia se amparado na razão e, assim, pode ter deixado escapar uma vida inteira. Derramou a última lágrima e fechou os olhos, suspirando demoradamente, disposto a esquecer e ao mesmo tempo desejando nunca mais acordar. Tudo em função de uma simples torta de maça.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 5:10 PM
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wSegunda-feira, Julho 18, 2005 |
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Quando ouviu seu nome pronunciado, Tim se levantou calmamente, embora as pernas tremessem e estivesse tomado por um sentimento estranho. Sabia que poderia responder com naturalidade a qualquer questionário, mas fazê-lo na frente dos demais colegas não era confortável. Ainda não o conheciam o suficiente, de modo que não gostaria de deixar uma impressão ruim. Em especial porque era um rapaz inteligente. Lerdo em excesso em alguns casos, mas extremamente dedicado aos estudos e grande apreciador do conhecimento. Qualquer nova intriga era suficiente para dar início a estudos prolongados sobre o tal assunto.
Como praticara a disciplina no dia anterior, postou-se na frente da sala e objetivou responder à todas as perguntas com naturalidade. Não foi exatamente possível, até mesmo em função da pouca familiaridade com aquele tipo de cobrança. Mas se saiu bem, foi breve, com poucos minutos foi liberado para que outro pudesse ser chamado a ocupar o seu lugar e passar pelo mesmo suplício. Saiu em direção aos que antes foram sabatinados, para que pudessem comentar suas atuações. Sentiu-se aliviado, um peso parecia ter sido tirado de suas costas. Mal sabia, porém, que ficaria aquele dia marcado na memória por motivações pequenas.
Olhou para trás e, pela primeira vez em alguns meses, notou Sarah. Andava em sua direção, confiante, exibia um sorriso banal e um olhar despreocupado que tocou Tim profundamente. Embora a visse diariamente e a achasse muito bonita, nada conversavam e aquela parecia ser a primeira oportunidade. Isto porque ela, despretensiosamente, dirigiu-lhe a palavra, de maneira formidavelmente amiga:
- Você foi muito bem!
- Como você sabe?, retrucou Tim. Ele disse algo?
- Não, não disse, mas você foi bem.
- Não sei. E você, como foi?
- Também não sei.
Foram as últimas palavras antes que ela envolvesse as demais pessoas presentes na conversa. O assunto pareceu encerrado. Tim quis evitar que isto ocorresse e tentou mais um contato. Mas não foi bem sucedido como esperava. Sarah, centro das atenções, respondia a todos, com um sorriso inquietante, provocativo. Era evidente que gostava da posição que ocupava naquele momento, como se todos estivessem interessados no que tinha em mente. Seu ar de superioridade era ao mesmo tempo instigante, mas principalmente detestável. Deixava transparecer grande desdém e apatia, questionava a razão de tudo o que ocorrera naquele dia. E, mesmo sem demonstrar, esperava opiniões semelhantes.
Após alguns minutos, Sarah disse que precisava ir embora. Tim aproveitou a chance para acompanhá-la até a saída. Despediu-se também de todos, sugerindo uma grande coincidência de horários. Ele quis saber como a mesma se divertia, do que gostava. De maneira estranhamente interessante, percebeu em seus gestos e poucas palavras, traços de uma personalidade forte, decidida. Não era aquela menina séria e compenetrada percebida no mesmo ambiente que ocupavam. Pelo contrário, possuía um certo ar juvenil, nada perceptível fisicamente.
Como o tempo era curto, ambos sugeriram uma conversa em outro momento. Dificilmente ocorreria, o que realmente conduziu o primeiro contato foi a vontade de se conhecerem. E já estava feito. Não surgira ali algum interesse mais profundo, naquela breve troca ficou evidente que eram diferentes. Não seriam sequer amigos, eram mais duas pessoas integrando uma comunidade maior, que pouco bem proporcionava aos que se dispersavam. Sarah não olhou para trás e Tim, ao virar as costas, já se preocupava com diversos problemas dos últimos dias.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 5:42 PM
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wQuarta-feira, Julho 06, 2005 |
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Não saberia dizer o que há de verdadeiro no que as pessoas costumam chamar de coincidências. Mas é impressionante como somos levados a viver determinadas situações em momentos críticos. Em dias tristes, por exemplo, parece que tudo o que encontramos pela frente conspira para que não consigamos esquecer o motivo do desespero emocional. Grandes bobeiras nos fazem lembrar de pessoas que precisam ser esquecidas, assim como instantes assumem uma caracterização descompassada, o suficiente para que sejam cortadas da lista de execução mental.
Em tais momentos, inclusive, fica a sensação de intensa confusão. A realidade confunde-se com a ficção e os relatos pouco verdadeiros de outras pessoas, distantes de nossas vidas. Nos perguntamos sobre a existência de histórias tão bonitas, pessoas tão perfeitas. É simplesmente uma tentativa absurda de encontrar o caminho ideal para a construção dos relacionamentos de carne e osso, palpáveis, cheios de incertezas, dependentes de tamanhas preocupações e medos. Não depende apenas de sermos mais fáceis, o substancial é o fato de sermos humanos.
É impossível não pensar em dizer as palavras certas nos momentos que as pedem. Seria evidentemente primoroso se pudéssemos substituir o toque pela presença, de modo a preencher o vazio com a simples existência. Tenho a impressão, porém, que tal atitude é mais facilmente praticável exatamente quando não corresponde às nossas possibilidades. Discussões teoricamente complexas assumem um tom simplório e as dificuldades passam por nossos olhos como se todos os problemas fossem realmente solucionáveis, com um toque de saudade para torná-los mais mundanos.
Mas quando estão em nossas mãos, ocorre algo distinto. Porque as distâncias não são assim tão suportáveis. E se a correspondência for com alguém que definitivamente descobrimos não valer a pena, torna-se também preocupante, mistura-se com uma ansiedade absurda. Melhor então esquecer, dormir tranqüilamente sem a inquietação, por não sabermos exatamente como os outros reagem em situações críticas. A definição para o caso é perfeita, disseram outro dia que realmente existem pessoas que transformam amor em gráficos, meticulosamente desenhados.
A história que me foi passada tinha algo ainda sem explicação. A bola de sujeira, que parecia ser de outro planeta, saiu de casa sozinha, escondida, deixou dormindo a sua plataforma de embarque para a vida real. Entregou-se e riu com suas combinações cheias de impurezas e se deu apenas uma opção. Não resistir, porque sempre se achou o máximo, passara por tudo com impunidade. Não seria castigada pela consciência, eram muitas provas a respeito da inexistência da mesma. A resposta veio com a vida, que não dava tréguas a pessoas sem caráter, arrogantes. O nojo.
Ainda não sei o final. Torço, neste caso, para a queda violenta. Nos momentos mais difíceis não pode haver fuga, como as que ocorrem agora. Será favorável somente para que um novo direcionamento possa ser dado. Tomar um banho não ajuda a levar pelo ralo a culpa. Telefonemas em momentos estratégicos de solidão não explicam as ações. De uma forma misteriosa, pouco elucidativa, consta a resposta solicitada para a patologia. Não desista nunca. Simplesmente porque não podemos, aos homens não foi concedido o privilégio da ataraxia.
Comentários: faltacoisa@yahoo.com.br
posted by Leonardo Niquini at 3:11 PM
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